A mulher não é abusada somente quando é estuprada; A mulher não é agredida somente quando apanha.
Ontem, quando voltava para casa de ônibus, sentei em um dos bancos, e observei o caminho pela janela, distraída. Percebi uma mulher de curtos trajes e tranças nos cabelos, que acenava freneticamente, junto a um grande sorriso, para que o motorista parasse. Ele parou. As portas se abriram, e ela pediu uma carona. Ele a deixou entrar e encostar-se na grade ali na frente mesmo. Até aí tudo bem, não fosse a história que ela começara a contar. Trazia, nas mãos, alguns papéis, e juntou-se ao motorista e a um dos passageiros próximo, que antes já conversavam entre si. Dizia a moça que estava voltando da delegacia, que dera queixa do, agora, ex namorado, dizia que ele a havia agredido, e que agora ele iria responder na justiça. Foi neste momento que a conversa me interessou, pois o rapaz que conversava junto ao motorista, rapidamente incluiu sua observação: “Mas você tem cara de quem é muito brava, imagino o que você não deve ter feito. Deve ter provocado o pobre do rapaz até ele perder a cabeça.” Eu bufei, mas a mulher riu. Comecei a me questionar se ele diria o mesmo, caso a agredida fosse sua própria filha, mãe, ou irmã, e achei melhor nem pensar na possível esposa. Aliás, achei melhor afastar meus pensamentos, pois preferi acreditar que ele não teria mulher alguma em sua vida. A conversa continuou, e finalmente a mulher das tranças disse que, alguns dias antes de ser agredida pelo ex, ela teria batido nele. Os homens participantes da conversa vibraram com tal afirmação: “Mulher bater em homem, pode né? Duvido que se ele fosse até a delegacia teria o mesmo resultado que você.” Bufei pela segunda vez, mas a mulher ainda ria. Questionei-me novamente se ela levava a situação com a seriedade devida, mas acabei me convencendo que não, afinal, ela continuava dizendo entre risadas que acabaria com a vida dele só pra ele ver. Ver o que? Perguntei-me, mas não obtive respostas. Ela por fim, agradeceu pela carona e desceu. Percebi que ela mancava consideravelmente, ao observá-la atravessar a rua. E continuei ouvindo a conversa, dos dois homens ali, que mal esperaram ela descer, e começaram a tirar suas conclusões: “Viu só a cara que ela fez? Viu aquela risadinha quando falei que ela deveria ter provocado? Tenho certeza que provocou! Ela nem negou.” Eu não conseguia ouvir muito bem o que o motorista dizia, mas o passageiro continuava: “É sempre assim, elas provocam, fazem o cara chegar no limite, e acaba acontecendo isso aí. Depois correm pra delegacia, e destroem a vida do coitado.” Os comentários tornavam-se piores a cada esquina, e novamente questionei-me se o mesmo homem diria isso pra própria filha, mãe ou irmã, caso fossem agredidas também. Pensei novamente na mulher que descera, e senti pena dela, a trouxe na memória até em casa, pois não consigo parar de imaginar se ela realmente tem noção de que ela ter agredido o rapaz não justifica ser agredida por ele.
Pergunto-me, também, se ela percebeu anteriormente que aquela relação já era abusiva ou errada desde o começo. Pergunto-me se ela tem ou terá filhas, e se soube ou saberá ensiná-las a não permitirem que homem nenhum as machuque, física ou psicologicamente; Se ela vai saber explicar que a mulher não é abusada somente quando é estuprada, e não é agredida somente quando apanha. Pergunto-me se ela ainda está viva, ou se já se tornou mais uma estatística, nesse mundo atual, onde não importam os papéis, as medidas protetivas, ou qualquer coisa que oferecem como ajuda, porque no final, eles sempre as alcançam, elas sempre morrem.
A mulher não é abusada somente quando é estuprada;
A mulher não é agredida somente quando apanha.
Pergunto-me, também, se ela percebeu anteriormente que aquela relação já era abusiva ou errada desde o começo. Pergunto-me se ela tem ou terá filhas, e se soube ou saberá ensiná-las a não permitirem que homem nenhum as machuque, física ou psicologicamente; Se ela vai saber explicar que a mulher não é abusada somente quando é estuprada, e não é agredida somente quando apanha. Pergunto-me se ela ainda está viva, ou se já se tornou mais uma estatística, nesse mundo atual, onde não importam os papéis, as medidas protetivas, ou qualquer coisa que oferecem como ajuda, porque no final, eles sempre as alcançam, elas sempre morrem.
A mulher não é abusada somente quando é estuprada;
A mulher não é agredida somente quando apanha.

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